terça-feira, 22 de março de 2011

Um dia à praia.

E num simples piscar de olhos, era impressionante a dimensão que aquela imagem tomava diante de seus olhos, um profundo abismo tomava conta de seu globo ocular e nada além do breu era visualizado. Aos pouco a luz tomou forma e clareou à Calvin o que não era imaginável, a praia tomava forma e ele podia sentir a areia e o vendo chamuscando sua pele, o cheiro de maresia era narcótico por suas entranhas, seus cabelos rechicoteavam em sua face enquanto caminhava sem rumo no novo caminho que lhe aparecera, o andar era sem rumo e a idéia era vazia, não havia sentido naquilo.

A memória insistia em trazer fatos antigos à tona, mas tudo não parecia ser mais do que ilusão mesmo quando o saber da verdade era presente em sua lembrança. Um pensamento lhe ocorreu naquele instante e as palavras proferidas pelo exacerbado andarilho, trajando pantufas e um hobby na cor marrom-tijolo, à praia fora tais:

- Estou só!

Aquele pensamento era ácido, corroia a virilidade e o orgulho do ser mais interno que poderia existir, Calvin sempre rodeado dos mais belos amigos e dos sentimentos mais maternais possíveis não findava sua busca em reconhecer seu próprio ser.

- Só jamais... Enquanto houver lembrança não haverá solidão à Calvin Von Sneaker. – proclamou a voz oriunda de um rapaz moreno, de fartos lábios e cabelos lisos, feições similares à Calvin, que apesar de nunca ter o visto, aquela voz te soava confortante a familiar. O rapaz vestia uma camisa preta em gola V, uma calça skinny e trazia tênis brancos sendo carregados pelos cadaços, seus cabelos estavam assanhados e suas olheiras eram detalhadas, mas não pelo vendo, a imagem era de alguém que acabara de amanhecer de uma noitada em Ibiza.

- Quem é você? – Pergunta Calvin ao rapaz.

- Eu sou você Calvin, o seu “eu” verdadeiro, aquele que realmente existe em meio ao seu caricato e exacerbado modo de ser, o detentor de suas ideologias e... – uma pausa seguida de um suspiro refletia um encontro já esperado por parte do rapaz. - ... o seu criador Calvin, o corpo do qual você representa a alma.

- Eu morri? - A expressão de Calvin era veemente.

- Não. Partindo de um pressuposto que você nunca viveu.

- E o que te leva a dizer isto? Você é Deus? E o que você realmente sabe sobre a vida? Como sua alma, imagino que eu seja o concreto dos seus desejos mais profundos e a alusão aos seus sentimentos mais exagerados... – Calvin tomava em sua voz novamente seu sentimento de prepotência, do qual era sua marca registrada.

- Se quiser sentar ao meu lado, talvez possamos conversar... existe muito entre eu e você dos quais sabemos, mas precisamos realmente enxergar.

Calvin lentamente caminhou na direção do rapaz, sem tirar os olhos do mar, sentou-se ao seu lado e pegou em seu bolso um maço de cigarros, pegou um único e acendeu. – Você não fuma. – Calvin afirmou ao rapaz.

- Como sabe?

- Pelo simples fato que detesto cigarros, fumo-os apenas por achá-los interessantes, mas não trago, pois não me sinto bem com vício, e estes cheiram aos vinhedos de Malbec.

- Sagaz pensamento...

- Sensato seria o adjetivo correto. – Calvin afirmou enquanto se formava um sorriso de canto em seu rosto, quebrando o gelo e o clima fúnebre da praia nublada, na qual os dois indivíduos se encontravam sentados á areia fria.

- Te elogiar não é um bom passo, eu mais do que tudo sei disso, Calvin é egocêntrico demais para não comover-se com um afago verbal.

- Porque disso? – Calvin indagou de repente.

- Disso o que?

- Esse encontro hoje? Porque hoje e não amanhã ou ontem... o que tem de especial em hoje? O que significa exatamente a quebra dessa barreira entre criador e criatura?

- Muitas perguntas e poucas respostas meu caro, mas nunca é tarde para a liberdade, somos muito mais do que criador e criatura, somos um único Calvin. E o hoje é o mais importante que temos, pois ontem é apenas memória e amanha é apenas sonho. Mas se você quer uma resposta apenas olhe para frente e me diga o que você vê.

Naquele instante uma onda melancólica atingiu em cheio o peito de Calvin, um sentimento nostálgico do qual ele não sabia expressar exatamente o porquê, preencheu seu peito e deu um nó em sua garganta, diante de seus olhos encontravam-se tudo que mais intrigava Calvin em vida: O Mar, aquilo tão incerto, tão subliminar e tão adverso preenchia seus olhos de leste a oeste. Apenas mar e areia.

- Você vê o mar Calvin?

- Não – Uma pausa acentuou-se em sua voz - ... Eu vejo a vida. Vindo e voltando num movimento com freqüência quase exata a minha respiração, trazendo areia e levando areia, quebrando nas pedras e unindo-se novamente em seu retorno, horas revolto e cheio de espuma e em instantes calmo e trepidante em ondas, mas não deixa de ser mar, não deixa de ser vida.

- Calvin, durante muito tempo você tem sido a minha válvula de escape, o meu ponto de equilíbrio e a minha luz, mas nos últimos tempos você me deixou, me deixou que eu vivesse afogado em felicidade e diversão sem sentidos, eu senti sua falta. Mas hoje eu sinto que você vive em mim, não apenas como um fruto exacerbado do meu eu, mas como eu... assim como eu você sente falta do passado, mas você precisa entender que ele jamais deixará de fazer parte de você, seu passado está impregnado em seu caráter e em sua personalidade, mas você não pode deixar que isso te impeça de viver coisas novas, o mundo precisa de você, precisa que você viva, independentemente de problemas e possíveis erros, caminhar é necessário e chega a hora de deixar um pouco de lado o nostálgico.

- O que você entende por liberdade? Justo você que é tão apegado ao passado vem me dizer que eu preciso deixar o passado? Você que guarda bocais de canetas, pois tem pena de esquecê-los... Isso é uma forma de dizer pra si mesmo o que precisa fazer? È necessário escrever mais e mais contos para desabafar? Viva você... Esqueça o mundo, esqueça tudo, siga em frente e não me use mais pra tentar chegar em um ponto seu. Você é o senhor de suas vontades. Não precisa de mais um pseudônimo pra ser o que quer.

O rapaz sorriu, aquilo parecia finalmente fixado em sua mente, seus olhos brilhavam em brasa novamente, era como se a felicidade pudesse ser vista a flor das vistas. O sol se abriu, em poucos instantes o rapaz desapareceu e Calvin percebeu que ele não estivera, de fato, ao seu lado e que a voz que o mesmo escutava não vinha de lugar nenhum a não ser oriundo de sua boca. Suas vistas se tornaram vermelhas, num passo tudo estava vermelho e sem forma, quando as pálpebras se abriram e a janela deixara a luz do sol entrar na sala do apartamento, Calvin encontrava-se com o mesmo hobby marrom-tijolo, os óculos apoiados ao nariz e em seu peito jazia aberto o exemplar de o Ensaio sobre a Lucidez de José Saramago.

O telefone tocou em questões de instantes, Calvin caminhou até ele e o atendeu.

- Call... já ti liguei milhões de vezes... onde você estava? – A voz mais que reconhecível de Jude era tenaz em seus ouvidos, certa felicidade repentina bateu em seu peito, ele não respondeu, sentou-se no sofá e num relance viu suas pantufas, estavam ao lado do móbil. Um suspiro e voa lá, elas estavam completamente cobertas de areia.


3 comentários:

Ellen disse...

Binho, eu simplesmente nem sei o que dizer, me bateu uma certa nostalgia agora e me deu muita vontade de chorar, não sei ao certo o por que, mas talvez tenha sido o fato de o mar ser a nossa vida. shuashua adorei *-*
by_Binha

RafaelaBarbosa disse...

Amei esse texto. Ele é cheio de vida, de sensibilidade. Deu até pra sentir medo em algumas partes desse encontro... Não existe melhor conselheiro do que nós mesmos, nada como um bom papo interior para esclarecer as coisas. Costumo pensar que nem mesmo seu melhor amigo seria tão sincero com você quanto você mesmo. Escreva mais pra nós. *-*

Mila Nunes disse...

Lindoooo! Leve e sereno .. um dos meus preferidos! Seeeeempre bom dar uma refletida consigo mesmo pra analisar o que você realmente ta fazendo com sua vida e principalmente .. pra não se perder de você mesmo..

um beijo vida ;*

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